Desencontros e Reencontros

Já se sentiu desmotivado, desanimado ou mesmo anestesiado da vida? “Sem vontade de cantar uma bela canção”? Às vezes nos deixamos arrastar para esses momentos sem percebermos. Mas não é culpa verdadeiramente nossa. Apenas ficamos mais sensíveis ao momento que à nossa história como um todo. Nos esquecemos…

Estou eu aqui vivendo minha vida de sempre. E eis que sou sacudido violentamente. O solavanco veio travestido de forma sutil, mas teve um grande impacto. O que aconteceu é que fui lembrado de que me esqueci.

Ao sair do cinema após O Pequeno Príncipe, senti-me atordoado. Não sabia que estava me esquecendo de tanto! Na famosa “correria do dia a dia”, perdi-me de minha capacidade de viver a essência das coisas. Sempre preocupado com as tarefas a cumprir, as obrigações a cuidar, os problemas a resolver, esqueci-me do que é essencial. E estava bem ao meu lado.

A caminho do cinema fui criticado por minha esposa sobre a minha forma de dirigir. Estava apressado em demasia e quiçá um pouco imprudente, realizando alguns movimentos bruscos. Pensei: “ora, mas eu dirijo assim boa parte do tempo que ela não está comigo”. E dei-me por certo. Estava ofuscado pelo cansaço, pelos problemas, pelo estresse. Ora irritado. Ora chateado. Ora no piloto automático. Obviamente não foi só isso. Alteramos nossas emoções a todo tempo. Mas nem percebemos. E em alguns momentos estive bem. Mas a essência do meu momento estava sendo o desânimo e a tristeza, que ora se manifestavam como irritação e descaso.

Mas no cinema levei um choque! “O que é essencial é invisível aos olhos”. E eu estava focado demais em olhar para os problemas. Saí do cinema como se tivesse levado uma surra. Uma surra que já havia levado tempos atrás, da mesma história, mas em uma mídia diferente.

É impressionante como nos esquecemos. Esquecemos o que realmente importa, o que realmente é essencial. Esquecemos as belezas da vida. Ficamos muito sob controle do momento atual. Das frustrações. Das obrigações. E nos esquecemos de nos admiramos com a beleza da vida. Sofia já havia me ensinado essa lição em Seu Mundo. Mas eu esquecera.

Às vezes me pego pensando sobre o quanto nos deixamos levar pelas escolhas omissas que fazemos todos os dias. Porque escolhemos ser omissos muitas vezes. E depois culpamos a vida ou as pessoas ao redor por nossa vida ser miserável em muitos sentidos, pois esquecemos que escolhemos não escolher, escolhemos deixar “a vida” escolher.

Esquecer é muitas vezes uma forma de defesa sem igual. Quando esquecemos, deixamos de ser responsáveis por muito do que ocorre de errado em nossas vidas. O esquecimento funcional é necessário mesmo para vivermos bem? Sei que nunca vamos lembrar de tudo, mas fico receoso de achar que esquecer é viver melhor. Muitas vezes, esquecer é só uma forma de tentar apagar o passado. E pode ter certeza: ele voltará.

Muitos se sentem presos a traumas, memórias dolorosas e acham que esquecer é uma forma de se libertar. Esquecer, na verdade, pode acabar tendendo a ser a verdadeira prisão. Acabamos vivendo aprisionados ao não aprendizado. Sem aprendizado, tornamo-nos autômatos, que repetem a programação base, errando constantemente os mesmos erros. Que vantagem pode haver em uma vida assim? Esquecer não encerra o problema, mas pelo contrário, o afirma repetidamente.

Defrontar-se com tal verdade é algo doloroso. E essa foi a exata dor que senti ao sair do cinema. O Pequeno Príncipe havia esquecido. Eu havia esquecido. E relembrar é doloroso. Eu me esqueci de como é enxergar pelos olhos de uma criança, de cativar e ser cativado e da importância disso para superar o mal estar de muitos dias da vida cotidiana.

Se há uma funcionalidade no esquecimento, há uma igualmente importante no ato de recordar. Esquecer muitas vezes ajuda a superar uma situação que não pode ser resolvida momentaneamente. Relembrar faz parte do aprendizado, da superação, do amadurecimento, da resiliência.

Estar crescido não é metade da diversão de estar crescendo”, diz o refrão da música. Concordo como nunca com esse trecho, mas às vezes nos esquecemos disso. Com frequência nos esquecemos disso. E às vezes precisamos de uma provocação a mais para reencontramo-nos com a beleza das pequenas coisas da vida. Ainda bem que achei o meu disparador…

Imagem da capa: The Little Prince

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