Medo

“Posso pedir um texto?”. Essa foi a pergunta da minha mãe diante da possibilidade de um filho escritor e da boa repercussão dos primeiros textos. Fique muito animado e lisonjeado por já ter um leitor fazendo pedidos! E o primeiro pedido (e único até o momento) a ser atendido será exatamente o dela: escrever sobre o medo.

Não é minha intenção reinventar conceitos ou mesmo ser por demais acadêmico, quero apenas explorar um ponto de vista da questão. Sendo assim, o que posso dizer sobre o medo? Bom, gostaria de tentar desmistificar um pouco o medo como algo necessariamente ruim, já que ele é assim considerado na maior parte do tempo por muitos de nós. Como consequência, o valor do medo se perde e acabamos desconsiderando-o como algo potencialmente importante em nossas vidas.

Evitar becos escuros por temer ser assaltado, sentir-se ansioso diante da prova importante, ficar apreensivo com a opinião de amigos sobre um texto que escreveu, ou se sentir receoso diante da possibilidade de problemas de saúde devido a uma dieta nada saudável. Tudo isso faz parte de um mecanismo biológico que naturalmente temos e é ativado em diversos momentos ao longo da vida. O medo nos torna atentos a perigos e problemas que enfrentamos e podemos enfrentar.

Em termos evolutivos, os humanos que andavam em grupos atentos aos perigos, em especial os noturnos, tiveram mais chances de sobreviver. A organização fisiológica propensa a deixá-los mais alertas foi transmitida aos descendentes e por isso temos uma predisposição ao medo. Mas são as experiências vividas que ativam e desenvolvem uma aprendizagem no organismo de como utilizar esse sistema do medo. O medo sentido diante de determinadas situações pode ser explicado à partir de contextos similares vividos no passado que produziram sensações de medo. Imagine uma criança que foi mordida por um cachorro raivoso, por exemplo. À partir dessa experiência, é razoável presumir que ela sentirá medo quando se aproximar de outros cachorros.

Há casos, entretanto, em que os desdobramentos do medo podem levar algumas pessoas a extremos, ao que se conhece por “medos irracionais”. Um exemplo é o de uma pessoa com medo extremo de contaminação. Provavelmente essa pessoa já sofreu no passado por alguma doença infectocontagiosa e desenvolveu uma fobia, um medo extremo de ser infectado novamente. Para tanto, uma das profilaxias, pode ser a de lavar as mãos. Não lavar as mãos passa a significar contágio e lavá-las significa ausência de doença. Dependendo do contexto em que a pessoa se insere e da sensibilidade biológica envolvida no medo, os desdobramentos do lavar as mãos podem ser ainda mais extremos: uma compulsão pela limpeza. Esse comportamento extremo, por sua vez, pode vir a causar feridas na pele, que são portas de acesso para o contágio de patologias. Situações como esta que contribuem para que a noção de medo adquira uma concepção ruim de si mesma.

O problema do medo é quando ele paralisa ou gera comportamentos compulsivos. Conferir dez vezes se a casa está fechada antes de sair, não andar de avião, não conseguir falar em público, ser acometido por impotência sexual (quando se sabe não haver impedimento fisiológico), não suportar estar na presença de qualquer ofídio, ser infiel a um(a) companheiro(a) antes que ele(a) o faça, desenvolver ciúme patológico, são exemplos de comportamentos controlados por situações previamente desagradáveis que devem ser evitadas a todo custo a fim de que não tornem a ocorrer. Essas polarizações são nocivas à saúde mental e à possibilidade de uma vida resiliente.

No entanto, há sim perigos em ser descuidado com a casa, em voar, ao se deparar com alguns tipos de cobra, bem como podem ser vexatórias as experiências de falar em público quando despreparado, ou ao ser desleixado consigo mesmo e no trato com o outro. Há de se estar atento a essas questões, mas apenas na medida em que não causem uma interferência significativa na vida. E o mínimo de receio é necessário para manter-se vivo, que é a função primordial do medo. É sobre sobrevivência que fala o medo. Entretanto, o excesso de medo se faz igualmente problemático ao desleixo quando se trata dessa sobrevivência. O ideal é sempre buscar equilíbrio, harmonia e evitar os polos opostos. Aprender com as experiências para otimizar a qualidade de vida, e não se tornar escravo de supostos traumas.

Imagem: By Tertia van Rensburg, Cape Town, South Africa | Available via Unsplash.com

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