O que aconteceu, querida Nina?

Demorei um tempo para assistir a este documentário. Me refiro ao “What happened, Miss Simone?”, documentário sobre a vida da cantora – e lenda –  Nina Simone. Me arrependo pela demora. Mas também acredito que algumas coisas na vida vem na hora em que precisamos delas. What you don’t have, you don’t need it now, me diria Bono Vox.

Conheci Nina há uns quinze anos atrás, acredito. Ou mais até. Sua voz marcante e dramática chegou até a mim através do filme “Thomas Crown, a arte do crime”. Sinnerman faz parte da trilha sonora do filme e me capturou desde a primeira ouvida. Eu, que já era apaixonada por “Don’t let me be missunderstood” (primeiramente na voz do Santa Esmeralda), me senti inebriada com seu “manámaná” e o o contrabaixo que sofre junto à sua voz. Desde então, Nina tornou-se uma das referências de crueza e verdade no que tange à interpretação de música. Quando a ouço cantar, consigo sentir sua voz ressoando em mim. Algo de initeligível, de mágico, de transcendente acontece.

Poder conhecer mais de sua história me fez mais humana. Assisti ao documentário em duas partes, ainda que não seja um filme longo. Me exigiu preparação. Algo no meu corpo pediu uma pausa após os quinze primeiros minutos. Talvez seja porque questões feministas tem me acometido muita insônia ultimamente. Talvez seja porque a história social do contemporâneo esteja provocando muito barulho e sofrendo as consequências dos anos de ignorância às questões políticas. Eu precisei me preparar, ponderar e respirar. No dia seguinte, continuei a assisti-lo de uma vez só. Quando acabou o filme, eu precisava dormir. E decantar aquela experiência.

Nina escancara o que é ser mulher, negra e artista na cultura americana. Como é crescer mulher, negra e artista. Como é se relacionar com homens sendo mulher, negra e artista. Como é difícil conter as bordas sendo mulher, negra e artista nos Estados Unidos dos anos 50/60.

“Eu escolhi refletir as situações nas quais eu me encontrava. Como você pode ser artista e não ser um reflexo do seu tempo?”

Eu não tenho a mínima ideia de como é ser negra. Mas sei que compartilhamos uma característica: somos mulheres. Quanto mais eu investigo, leio e estudo sobre a vida das mulheres ao longo da história, mais eu me interesso e quero me aprofundar. Nina sofreu muito pela exploração de seu talento, por se envolver em um relacionamento abusivo, por experienciar seu devir criativo no limite, por afetar-se profundamente pelas questões raciais na luta social em um país extremamente violento…

Seu legado musical embala meus dias mais românticos e potentes. Sua voz conforta meu coração quando suavemente ouço “my baby just cares… for me”, de uma maneira tão singular que poucas outras músicas e experiências sensoriais conseguem alcançar. Feeling good inspira acordar e acreditar em dias melhores e em um futuro a ser construído, com amor e companheirismo. Love me or leave me empodera até mesmo nos dias mais desanimados e faz sacodir a poeira, produzindo um calorzinho confortante de autoestima e carinho, de que podemos ser mais do que dizem que podemos ser. E merecemos sempre mais.

Quero dizer, posto tudo isso, que o que aconteceu com Nina é o que acontece diariamente com muitas de nós. Em graus diferenciados, em culturas diferentes, mas com uma marca central: ser mulher não é fácil. E tão cedo será. Aprendi com seu documentário que grande parte de sua produção foi voltada pela luta dos direitos civis nos Estados Unidos e isso custou um declínio em sua carreira, mas Nina segurou as pontas do jeito que conseguiu e não desistiu de ser quem era. Viveu do jeito que quis, pagando um alto preço em muitos momentos, mas sendo autêntica. Até o fim.

Imagem de capa via: 98.7wfmt.

O que achou disso?

1 comentário

  • “Don’t Let Me Be Misunderstood” is a song written by Bennie Benjamin, Gloria Caldwell and Sol Marcus for the jazz singer and pianist Nina Simone, who first recorded it in 1964. “Don’t Let Me Be Misunderstood” has been covered by many artists, most notably by The Animals, whose blues rock version of the song became a huge transatlantic hit in 1965. A 1977 four-on-the-floor disco rearrangement by disco group Santa Esmeralda was also a hit.

Ei, você precisa estar conectado antes...

ou

Registrar-se

Esqueceu a senha?

Não tem uma conta? Register

Fechar
de

Processando arquivos…