Um pouco de silêncio… senão sufoco!

Em tempos de polêmicas ininterruptas – será que isso tem fim? – parece um veredicto opinar sobre tudo. Falar, escrever, compartilhar. É importante diferenciar que existem assuntos pertinentes à minha vida e que me tocam, que falam do que sou, do que experiencio cotidianamente, que lido no meu trabalho ou que são importantes para mim. Mas também existem outros que não me afetam diretamente também. No fim das contas, somos convocados nos posicionar sobre tudo, a qualquer tempo e hora… O problema a ser discutido aqui é o fatídico achismo de que somos todos especialistas, em relação a qualquer assunto. Sendo assim, todo mundo precisa, o tempo todo, escolher um dos “lados da história”, que se situam, por vezes, em extremos opostos. Precisamos – ou nos fazem acreditar que precisamos – escrever longos textos, postá-los imediatamente, ganhar muitos likes nas redes sociais e então, descansar. Até a próxima polêmica.

Mas eu não posso expor minhas opiniões? Isso não ajudaria a me engajar com quem pensa igual ou parecido a mim? Bem, em muitas situações, ao expor nossos posicionamentos virtualmente, a interpretação livre e sem controle da internet instaura um decreto de guerra àqueles que pensam diferente de mim. E, quando percebemos, o campo minado já está em chamas: amizades desfeitas, “tortas de climão” entre membros de uma mesma família… Qual é o preço que estamos pagando pela necessidade criada em dizer algo sobre tudo… o tempo inteiro?

Diante dos últimos acontecimentos políticos e sociais no país, falar sobre política, diretos civis, e partidos virou a pauta das conversas em qualquer espaço de convivência. A famigerada liberdade de expressão é um desafio que se coloca, o tempo todo e confunde-se com falta de limites, de respeito, e até de conhecimento de causa. Nesse ínterim, muitas vezes me peguei pensando: qual o meu limite pessoal? Como “segurar”, apenas para mim mesma, os pensamentos e sentimentos advindos dessa experiência? Mergulhada e saturada de informações, procurei saídas: ler mais? Escrever mais? Ficar offline?

Em minhas concatenações de pensamento, no canto oposto da obrigatoriedade de exposição e compartilhamento, pensei em discutir sobre a liberdade do estar em silêncio. Mesmo em face dos absurdos aos quais temos sido bombardeados – alguns deles beirando verdadeiros atentados aos direitos humanos – é necessário avaliar o que, porquê e como eu posso contribuir ao publicizar minhas opiniões. E para tal avaliação, é preciso reflexão. E para refletir, é preciso silêncio.

Preciso pensar para agir, assim posso permitir que palavras se concretizarem em ação.

Vamos fazer um exercício? Dar chance e produzir espaço para o silêncio em nosso dia a dia. Espaço para perceber aquilo que não é claramente dito, aquilo que ainda não sei, para as coisas que ainda não consegui absorver, para aquele sentimento meio embrulhado no estômago de que ‘talvez eu nem queira falar sobre’. Porque tem dias eu não quero falar sobre nada e nem com ninguém. E tudo bem!

Dar chance ao silêncio é também conseguir acolher o que o outro tem a dizer. A partir do que o outro me diz, posso aprender, observar, absorver, refutar, construir, diferir, esquecer, ignorar. E para além disso, me permitir sentir, pois sentimentos exigem atenção da mente e do corpo, exigem cuidado e exigem tempo! Refinar a escuta e acolher o outro pode nos levar a descobrir outros caminhos em nossos pensamentos, em nossa comunicação e em nossas ações.

Pode parecer um tanto idílico – e zen demais para a cultura ocidental – pedir atenção para os momentos de silêncio. A impressão é que estamos em guerra contra tudo e contra todos, e, quem não se manifestar, será bombardeado e abandonado à própria sorte. Mas afinal, por que nos sentimos nesse estado permanente de alerta?

O silêncio é sábio. O silêncio contempla e espera. Quando quebrado, por vezes machuca, por vezes surpreende, por vezes acalenta. O silêncio nos faz conseguir ouvir o que é abafado pela confusão do dia a dia. O silêncio permite ouvir nossos sons internos, que ecoam na mente e no corpo. Para cada época, pessoa, situação e encontro teremos um resultado diferente. Então, talvez a saída para a inquietação do mundo resida na eterna disposição de tentar…

O cotidiano se transforma cada vez mais rápido: a internet se expande, o consumo de produtos e serviços se intensifica, trabalhamos cada vez mais, conquistamos muitas coisas… Mas também perdemos em grandes escalas: destruímos a natureza, extinguimos animais, ficamos cada vez mais doentes e mais sozinhos. Campo fértil para que também cresçam fascismos, radicalismos, extremismos. Para todos os lados, afetando a todos nós.

Nesse cenário, minha aposta é acreditar que a liberdade de existência, em todos seus sentidos, tem de ser pautada pelo respeito e pelo cuidado. Produzir espaços e experimentar a vida de maneira mais responsável e carinhosa. Abrir janelas de tempo para aprender, conseguir repousar sobre os pensamentos e ressoar os efeitos dos acontecimentos. O que acontece em mim? Como eu me comporto diante disso? O que quero fazer? Como irei agir diante disso? Aprender a se ouvir, sem ter que responder imediatamente. O mesmo devo aplicar na relação com o outro. Por mais que o mundo nos exija posições, poucas pessoas estarão presentes, preocupadas e dispostas a ouvir, trocar experiências e planejar ações.

Acredito que uma postura ética possa existir, resistir e não significar armar-se contra tudo e todos. Se conseguirmos produzir hábitos de cuidado, de escuta e também de silêncio, talvez essa fragilidade tão exposta do contemporâneo possa ser dissolvida… E então transformada em ações de afirmação da vida! Como nas leis da física, algumas misturas exigem que ao acolher o diferente, devemos deixá-lo decantar. Que este silêncio possa ser a marca de uma posição de respeito, uma pausa no caos imposto pelo nosso tempo. Que o silêncio nos ensine o respeito à existência e à vida, que tem sido tão alijada e diminuída. Sufocar menos os outros com palavras e discursos inflamados, ser capaz de esperar, de dar vez ao incômodo de não ser imediato e aprender com ele. Pode ser que eu esteja errada, mas aposto que o silêncio é nossa melhor chance de conseguir nos ouvir melhor.

Imagens gentilmente cedidas por Gratisography.

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