Sobre cheiros e memória

Pela manhã, ao me arrumar para ir ao trabalho, abri uma embalagem nova de máscara para os cílios. Assim que retirei o aplicador do recipiente, fui transportada para uns 7 anos atrás. Noites de sexta feira, quando me aprontava para sair e dançar com amigos no Clube Centenário… Ah, a juventude. O frescor da caipirinha barata, os hits pop rock da época, o calor do clube, os banheiros quebrados, a entrada à R$10! Que tempo, que lembrança, que saudade.

É impressionante – e por vezes assustador – como cheiros são portadores de lembranças tão distantes e até mesmo quase esquecidas. O olfato carrega memória e, junto ao paladar, tem o poder de nos transportar através do tempo, convocando diversos sentimentos e pensamentos profundos, nostágicos, guardados lá no fundo de nosso sistema límbico. Não é difícil pensar em cheiros comuns que trazem sensações: café sendo coado, cheiro de chuva, bolo assando no forno…

As partes do corpo, são adquiridas progressivamente ao mesmo tempo em que as “contrapartidas do mundo” vão sendo registradas de nova forma. (Bruno Latour)

O corpo carrega memórias pois aprende com elas… São registros sensíveis, que, quando evocados, portam lembranças e convocam o corpo a re-experienciar e revisitar situações vividas. O cheiro do mate em contato com água quente me leva para a cozinha da minha avó paterna, esperando na mesa o lanche da tarde. É batata! Todas as vezes que sinto esse cheiro, tenho novamente 8 anos, muita bochecha, com um prato de doce de mamão verde e queijo curado.

E os cheiros que carregam memórias de pessoas? O perfume de uma amiga, o cheiro da pele da pessoa amada, o cheirinho da colônia d’uma avó que já partiu… Às vezes chamam pessoas que gostaríamos de esquecer (ex namorad@s).. porque dói um pouco lembrar de certos momentos – que às vezes só queremos deixar no cantinho empoeirado das lembranças.

Cheiro de gente é o tema de um romance thriller do escritor alemão Patrick Süskind, publicado pela primeira vez em 1985, entitulado Das Parfum, die Geschichte eines Mörders – que na tradução literal é O Perfume, História de um Assassino. O romance tem uma adaptação para filme muito boa, de 2006. O interessante dessa história é que o protagonista, Jean-Baptiste Grenouille, tem olfato apuradíssimo, percebendo os cheiros mais diversos e até mesmo os imperceptíveis ao olfato normal. Ao mesmo tempo, seu próprio corpo não produz odor algum, não deixando rastros e sendo até mesmo ignorado em alguns lugares por onde passa. Seu dom se torna uma obsessão e daí desenrola uma história que beira filme de terror mas também é um drama e suspense. Fica a dica para o fim de semana.

O olfato é o primeiro sentido a ser desenvolvido no embrião. Quando nascemos, já tivemos experiências olfativas através do líquido amniótico. Segundo a medicina, a memória olfativa é uma característica tanto fisiológica quanto psicológica. As fibras do nervo olfatório fazem conexões com áreas do cérebro responsáveis pelos processos de sentir cheiro, gosto, comportamento alimentar e sexual”. Apesar de termos o olfato muito inferior ao de outras espécies, é um dos principais sentidos para a nossa sobrevivência.

E você, também se conecta nas memórias cheirosas?

Imagem/Capa: deathtothestockphoto.com

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