Sobre Perdas

Todos nós sabemos o que é ter perdido alguém ou algo que nos é muito querido na vida. Podendo ser o falecimento de algum ente querido; o bicho de estimação que era como um membro da família; um amigo levado pelo tempo, distância ou discordâncias; o tempo para aproveitar a vida (ao lado dos filhos, por exemplo); um estilo de vida; um status; um objeto que considerava sagrado; um emprego pelo qual se tinha muita estima; os bens materiais adquiridos ao longo de uma vida e repentinamente perdidos; memórias, devido a uma condição neurológica; a confiança de alguém prezado; um membro, por desleixo ou acidente; a saúde; um amor; alguém que decidiu sair de nossas vidas por algum motivo. Não importa qual seja a perda, há sempre uma constante: uma perda sempre vem acompanhada de algum tipo de dor.

A sensação da perda já foi descrita por muitos. Não vou tentar reinventar a roda. Apenas acho que o sentimento, por mais similar que possa ser a todos, é único. É uma experiência própria. Sendo assim, atrevo-me a fazer minha descrição. Tenho a perda como engolir um buraco negro. Fica um vazio constante. Como se faltasse algo insubstituível, essencial. E parece que o vazio só aumenta. Temporariamente, consome a beleza da vida. E também funciona como um grande imã, que atrai a tristeza. É a Lei de Murphy mais pura: tristeza atraindo tristeza (desgraça atraindo desgraça). A perda gera uma sensação de incompletude infinita em sua duração.

A perda não é só a ausência daquilo que não está presente. Não é só deixar de ter o alívio imediato da angústia instantânea. Também não é só a perspectiva da falta constantemente presente e até futura daquilo que nos fazia bem. É também a ausência daquilo que disparava novas vivências e sensações. É o fim da relação complexa de estímulo e de consequências que envolve o que não se faz mais presente. E essa relação complexa passa a exigir que atitudes, posturas e decisões sejam tomadas sem a presença tanto desse estímulo quanto dessa recompensa. Exige nova adaptação. E é isso que dói.

Mudar dói. Incomoda. E a mudança só pode ser estimulada pela perda ou pela perspectiva de alcançar novos objetivos. Novos objetivos e novos sonhos podem gerar novas perdas. E como não entrar em uma espiral de perdas? Como não viver a vida com o foco e o temor das perdas? A resposta é até simples em sua teoria, mas deveras complexa em sua prática: experimentar, viver, sentir, sem tomar para si.

A grande questão da perda envolve a essência de como nos relacionamos com o mundo em que vivemos (nós = padrão ocidental de pensamento social, político, filosófico, econômico, religioso). Relacionamo-nos de forma muito egoísta com o mundo ao redor. Tomamos tudo como posse. Usurpamos nosso mundo. Apoderamo-nos dele. Só podemos perder aquilo que nos possuía, certo? Eis o grande problema de nossa sociedade. Aprendemos apenas a olhar a constância do mundo e esquecemo-nos de olhar as intermitências da vida. Em algum momento, tudo muda.

Vivenciar, experimentar e usufruir não são significados de possuir. Vivemos. Mudamos constantemente. Padronizamos as mudanças. Mudamos periodicamente. Criamos expectativas. E muitas vezes nos decepcionamos quando elas não se concretizam. Mas viver não é seguir regras específicas. As regras da vida mudam. Tanto as escritas como as não escritas. Enquanto aprendo a viver, aprendo a não possuir. Se apegar é diferente. É viver a essência da experiência. Mas não precisa envolver posse. Em um mundo de mudanças, tomarmos alguns parâmetros não é ruim, mas nos esquecermos de que a essência da vida é a mudança e de que nossas regras são construídas apenas em cima dos alicerces de algumas experiências pode ser muito doloroso. Doloroso porque achamos possuir o conhecimento do fundamental, do essencial. E quando perdemos nossas certezas, a dor nos atinge. Mas esquecemos acima de tudo a real perspectiva de que a vida é fluida.

Infelizmente, a ignorância se propaga. E muitos nunca tiveram acesso ao entendimento mais amplo do funcionamento fluido da vida. Os que são mais bem adaptados à vida, sofrem por um tempo. Os que não aprenderam, terão uma dura lição experimental. Mas o bom é que a dor também passa. E dela não sentimos a falta.

Imagem da capa: Aaron Burden via Unsplash HRP.

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