Sobre sementes, jazz e a vida

A ilustração do fotógrafo Rafael Matos acima descreve perfeitamente as palavras a seguir.

O Jazz é um dos estilos musicais mais complexos e difíceis de ser executado. Um dos mais belos, vivos e envolventes, no entanto. Improvisações, dissonâncias, síncopes, swings… suas características falam da vida. Ao descobrirmos que a semente do Jazz – assim como a do samba – foi trazida pelos africanos, entendemos então seu poder revigorante, transformador. O que dizer da Bossa Nova então (o casamento genial entre jazz e samba)?

Uma semente, no entanto, não se desenvolve dependendo exclusivamente de seu genoma. O ambiente ativa e desativa certos genes. Influencia massivamente seu curso de desenvolvimento. Não foi diferente com o Jazz. Ora, como e por que os africanos foram para a América? Quais eram suas condições de vida? São perguntas que não precisamos responder, pois – visceralmente revoltados – as conhecemos muito bem.

Sofrimento.
Muito sofrimento.
Libertação.
Rejeição.
Desigualdades.
Desigualdades.
Desigualdades.

Disse João Gilberto sobre o irmão do Jazz: “O samba é filho da dor”. Como então ser um acorde 1-3-5 tão afinado, se para a realidade de muitos essa afinação não existe? Viva a dissonância! – “Mas soa estranho, parece que algo na música está errado… parece que alguém errou o tom!” – Parece que alguém errou… Não! Não há erro algum aqui. A dissonância do Jazz descreve o que a vida é para quem trouxe a semente do Jazz. Mostra que nem sempre tudo se encaixa num modelo ditado. Que a música das circunstâncias nem sempre vai terminar como um “amém” triunfal de Handel, e sim com a frustração do “desafino” que, agora, não mais é considerado desafino, mas dissonância: a condição ontológica do Jazz. A condição ontológica da vida.

A síncope, desobedece a ordem do tempo. Resiste, em certa medida, a marchar conforme a regra. Desvia, atrasa, adianta, mostra que tem poder próprio sobre si, define seu andamento, estabelece sua liberdade. “So what?”, diz Miles Davis como quem pergunta e ao mesmo tempo afirma: “E daí?”. Por mais que alguns poderes insistem em determinar a vida como quadrada e regrada, por mais que o terreno castigue e seja injusto, a semente carrega o genoma do resistir e do reinventar; busca e encontra alternativas no ambiente, cria. E onde há criatividade há improvisação.

– “Não, isso não está na partitura. Não está escrito!” – Exatamente. Não está escrito. É improvisado, ao vivo. Não há muito tempo para pensar, é preciso agir. É preciso inventar na hora. Claro, o medo e a insegurança estarão na primeira fila concentrados em você. Sempre. E o que fazer? Paralisar-se? Entregar-se à inanição do nada? Repetir, repetir e repetir o que está escrito? Cada execução musical é única e acontece uma só vez. Outras execuções serão outras execuções, mas, novamente, serão únicas. Ao ser perguntado sobre o que é preciso para ser Jazzista, Miles Davis respondeu: “Don’t play what’s there, play what’s not there” [Não toque o que está escrito lá, toque o que não está escrito].

Toque o que não está escrito. Esta é a “regra” do Jazz. Esta é a “regra” da vida.

Imagem da capa: Rafael Matos. New York, Jul 2015.

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