Vidas de Papel

Recentemente, escrevi um texto para esta coluna falando sobre a importância de não nos esquecermos de experiências e vivências que tivemos, e como somos positivamente surpreendidos quando nos defrontamos com as lições há muito esquecidas. Hoje gostaria de retomar o tema pela perspectiva de um livro que acabo de ler: Cidades de Papel, de John Green.

O livro, resumindo sem dar spoilers, conta a história de Quentin, um rapaz que está em vias de terminar o ensino médio para ingressar na universidade e que tem uma quedinha de infância por sua vizinha, a quem há muito tempo não mantém contato, apenas a vê na escola. Só que uma noite, inesperadamente, a garota por quem ele nutre sentimentos bate em sua janela para convocá-lo a uma aventura de uma noite, e depois some deixando vestígios para que apenas Quentin possa encontrá-la. O livro passa a ser, então, a busca incessante do rapaz para encontrar Margo Roth Spiegelman, que já havia desaparecido outras vezes e já não assustava tanto os pais.

Algumas pessoas próximas a mim demonstraram até certa estranheza pelo fato de um livro direcionado ao público jovem adulto (young adult) ter mexido tanto comigo, até por ser um livro de nicho, um livro para o qual não sou mais o público alvo. Mas a questão é que mexeu. Lembrou-me muito da adolescência. Não por eu ter vivido exatamente os eventos do livro ou sequer similares. Definitivamente não. Mas por me fazer voltar a sentir a inocência se confrontando com a urgência da maturidade, o despertar do mundo conflitando com a vontade e o comodismo de manter uma rotina acolhedora, e o sofrimento do amor quase platônico que exige ser alimentado quase obsessivamente contrastando com o chamado das responsabilidades cotidianas que pouco conforto oferece nas sombras da noite profunda sobre a cama.

Margo é a necessidade de ir, de crescer, de assumir uma postura afirmativa ante a coerção de uma vida falsa, superficial. Traja ares de maturidade pelas análises que versam o escapismo do antes imposto. E que simultaneamente demonstra sua fragilidade pueril com vestes de vingança por se sentir abusada e incompreendida por todos. Choca a todos por simplesmente mostrar que é possível romper com o que fora instituído. Uma corajosa atitude punk digna de Supertramp! Assusta a todos nós, os eternos acomodados, engessados em nossos mundos de papel.

Seu contraponto é Quentin, um rapaz comum e que como muitos nunca se questionou se vivia uma vida falsa. Talvez até por conseguir ter uma vida mais autêntica que Margo. Mas que demonstra o tempo todo que espera algo para avivar sua monótona, controlada e programada vida. Não é qualquer um que se permite sofrer como ele. Há de ter uma propensão a questionar a existência. Quentin poderia viver toda a vida sem nunca dar falta de uma experiência como a que viveu. Sem nunca descobrir o quão vazia era sua vida. Mas Margo é seu Tyler Durden. É o fator de ruptura, aquilo que demonstra o quanto os pilares que sustentam o mundo de Quentin podem ser frágeis. E tudo isso em uma fase marcada pela insegurança, incerteza e urgência de tornar-se o que doravante há de ser.

Se um livro adolescente poderia soar aos desavisados e preconceituosos como simplório e tendendo a personagens maniqueístas, Cidades de Papel magistralmente não o faz. Ao contrário, lança luz a questões que permeiam a vida cotidiana de muitos que sequer se deram conta disso. Questiona a perenidade das escolhas feitas por outrem e que nos soam tão próprias. Indaga sobre os papéis sociais que desempenhamos e nossas escolhas: estaríamos apenas seguindo o flautista ou temos voz ativa nas escolhas que fazemos? E quais as responsabilidades isso implica? Deixa sempre a incerteza de estarmos seguindo as migalhas que Margo deixou. E sempre nos deixa em dúvida de estar buscando o fim ou o meio. E assim, vemo-nos como Quentin: precisando desesperadamente achá-la. Ao menos assim o fiz: não parei até encontrá-la. Eu também precisava seguir aquele caminho, também precisava ver até onde ia a toca do coelho. E a lição de Quentin já fora, por mim, aprendida, mas precisava ser relembrada. E precisava da jornada para me reencontrar mais que para encontrar Margo, mas apenas porque me permiti viver tal aventura.

Imagem/Capa: livrosepessoas.com

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